JORNAL DE MONTE

 

Monte Apraível SP 10-10-2017
HOMOSSEXUALIDADE É UMA DOENÇA?

 

Em setembro, uma polêmica decisão judicial gerou uma onda de indignação nas redes sociais. Foi concedida, por meio do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, uma liminar que torna legalmente possível que psicólogos ofereçam tratamentos para reversão sexual, abordados popularmente como “cura gay”.

Desde 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) se posicionou sobre essa questão, compreendendo a homossexualidade como um aspecto natural da existência humana, desconsiderando-a uma condição patológica, ou seja, uma doença.

A dimensão dos protestos é crescente e deixou o meio digital para reunir pessoas de diversas cidades do país e do mundo em manifestações contra tal decisão. A luta de integrantes da comunidade LGBTQ+ e simpatizantes não é nova, o que evidencia a enorme dificuldade para alcançar conquistas consideradas simples para indivíduos pertencentes a grupos dominantes da sociedade.
A ausência de preconceito, o respeito ao próximo, o direito de transitar livremente, a demonstração de afeto em público, o reconhecimento como um cidadão igual aos demais, entre outras atividades corriqueiras, são aspectos básicos na vida da maioria das pessoas, mas uma parcela minoritária de indivíduos, ainda, enfrenta diversas barreiras ao percorrer o caminho que os leva à igualdade.

Diante de uma polêmica que atingiu tamanha proporção, a reportagem do Jornal de Monte entrevistou, além de um psicólogo, dois aprazivelenses que, em diferentes etapas da vida, se assumiram homossexuais, para que pudessem relatar as próprias experiências referentes ao tema, incluindo não somente as que estão relacionadas a outros indivíduos, mas também confrontos particulares e silenciosos, como o da autoaceitação.

Claudinei de Souza, 37, percebeu que era gay por volta dos dez anos, porque gostava de brincar com bonecas ao invés de carrinhos. “Minha mãe, vendo meu comportamento, costumava brigar comigo e pedia para que eu fosse trabalhar na roça com o meu pai ao invés de passar meu tempo com meninas. Nessa época, eu sequer pensava em sexo, somente tinha interesses diferentes dos outros meninos”.

Conforme os anos passaram, o preconceito começou a aparecer nos ambientes em que ele frequentava, incluindo a igreja, quando os pastores evangélicos abordavam a homossexualidade como pecado e utilizando passagens da bíblia para consolidar esse ponto de vista. “Por conta disso, notei que havia alguma coisa errada dentro de mim e que precisava ser mudada. Por volta dos 15 anos, quando esse aspecto da vida começou a ficar mais evidente, cheguei à conclusão de que o fato de eu ser gay era uma doença e pedia para que Deus me ajudasse a mudar, já que minha família não aceitaria e eu também não me aceitava”. 

Claudinei afirma que era possível namorar e manter relações sexuais com mulheres, mas era impossível transformar a sua mente, o que fazia com que não só ele sofresse, mas também a pessoa com a qual estivesse se relacionando. “Por fim, passei a acreditar que, se eu casasse, seria capaz de mudar minha orientação sexual. Na época do matrimônio, eu tinha 22 anos. Em seguida, minha ex-esposa engravidou de uma menina e nos mantivemos juntos por quatro anos. Durante os dois primeiros anos de relacionamento, não houve grandes problemas. No entanto, após esse período, comecei a deixá-la de lado, ficava estressado sem motivo e brigava com ela. Alguma coisa estava errada e eu não aguentava mais”. 

Quando estavam próximos da separação, após uma longa conversa, Claudinei acabou revelando à esposa que estava “doente”. Ela, espantada, disse que ele tinha uma saúde perfeita, mas começou a suspeitar que ele tivesse uma doença muito grave. “Quando ela pediu detalhes sobre o assunto, pedi desculpas a ela e falei abertamente sobre minha orientação sexual. Em seguida, mesmo chocada com o que havia acabado de ouvir, deu-me forças e pediu para que eu fosse feliz. Entretanto, acabou contando sobre o fato para algumas pessoas e eu fiquei envergonhado, pois o preconceito começou a aparecer novamente. Por conta disso, voltei a namorar meninas para evitar que ficassem comentando sobre minha vida. Ao mesmo tempo, minha mãe já sabia de tudo e não estava disposta a me aceitar. Além disso, também pensava em como minha filha, Vitória Lara, reagiria quando crescesse e soubesse quem o pai dela era”.

Claudinei, com tantos pensamentos negativos, acabou entrando em depressão e passou a cultivar pensamentos suicidas, já que não encontrava sentido para a vida. Foi quando decidiu, por conta própria, procurar um psicólogo e compreender essa parte dele que se manteve oprimida por tanto tempo. “Mesmo com as sessões, anos se passaram para que eu conseguisse me aceitar. Ao conhecer meu atual companheiro, Edson Botte, acabamos começando a namorar e, após cinco anos, resolvi assumir, por meio das redes sociais, que sou gay. Hoje, acredito que a homossexualidade não é uma doença, porque não há nada que faça com que a mente seja mudada, somente Deus seria capaz disso. Fico revoltado quando me deparo com pessoas falando sobre “cura gay”, pois isso não existe. Não é como se quiséssemos ser quem somos, simplesmente nascemos dessa forma. Se eu pudesse escolher, certamente não optaria pela minha orientação sexual atual. Há tantos problemas graves que deveriam preocupar as pessoas e, ainda assim, parecem se importar com algo que nem é um inconveniente”.

Para falar sobre o assunto com a filha, que convive com Claudinei desde os quatro anos, um psicólogo o ajudou nessa tarefa, já que ele sentia muito medo da reação dela. Atualmente, embora não concorde plenamente, a menina decidiu aceitá-lo e não age de forma preconceituosa.

Pertencente à outra geração, Adriano Silva, 21, relatou que sempre soube qual era sua orientação sexual, mas não se assumia por medo de perder amigos e da reação de seus pais. “Somente falei abertamente sobre o assunto após me apaixonar por um garoto da escola. Nunca me senti incomodado por ser gay, sou feliz e ter me assumido foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Acredito que as pessoas nascem dessa forma, assim como eu. Seria a mesma coisa que abordar um indivíduo heterossexual questionando se ele nasceu assim ou tomou essa decisão ao longo da vida”. 

Adriano afirma que nunca pensou na homossexualidade como uma doença ou em procurar por tratamento. “No começo, quando comecei a olhar para os meninos com outros olhos, pensei que fosse apenas curiosidade. No entanto, enquanto eu estava me relacionando com meninas, nunca senti prazer com nenhuma delas. Nesse momento, percebi que, quando se tratava de pessoas do mesmo sexo que o meu, o toque, o olhar, o abraço, entre outras coisas, eram completamente diferentes. O coração acelerava e eu não sabia exatamente o que era isso, o que fez com que eu me descobrisse completamente aos poucos”. 

Na família do jovem não havia nenhum gay assumido; ele foi o primeiro. Adriano aponta que, no começo, todos ficaram chocados, mas acabaram aceitando com o passar do tempo. “Meus pais me aceitam como sou, porque sabem que sou feliz assim e nada vai mudar isso. Já fui vítima de preconceito algumas vezes, mas acredito que a minha felicidade deve estar sempre em primeiro lugar; então não me importo com o que irão dizer sobre mim. Na minha opinião, as pessoas veem a homossexualidade como doença, porque não têm mais o que fazer e decidem ficar cuidando da vida dos outros. Não há cura para orientação sexual, cada um faz o que tem de fazer, seja heterossexual, gay, lésbica, bissexual ou transexual. É ignorância pensar que existe tratamento para isso. Fico muito feliz ao ver novelas com personagens, com as mais diversas orientações sexuais, o que faz com que as outras pessoas entendam que isso é, absolutamente, normal”.

Para que a visão de um profissional também fosse destacada ao discutir tal assunto, a reportagem do Jornal de Monte entrevistou o psicólogo Sérgio Aparecido Marcos, que relatou a posição do Conselho Federal de Psicologia diante de uma suposta “cura gay”. “É definido que nenhum profissional possa oferecer tratamento para reversão de orientação sexual. Portanto, concluímos que qualquer teoria ou técnica que lide com essa perspectiva fere a atuação do especialista. Particularmente, desconheço quaisquer tratamentos para isso”.

Como profissional, Sérgio aponta que auxilia na diminuição de conflitos dos indivíduos, a fim de que eles possam tomar decisões que irão beneficiá-los e contribuirão para uma melhor qualidade de vida. “Quanto ao processo de autoaceitação, o trabalho é feito através de uma escuta que ajude o sujeito a entender o que se passa com ele nesse sentido. Além de facilitar a compreensão, a prática permite que ele tenha condições de se responsabilizar por aquilo que escolhe e faz. Quando isso acontece, o processo se dá com menos conflito e mais responsabilidade”.

Por fim, ao ser questionado sobre o preconceito, Sérgio aponta que é uma realidade. “Embora muito se fale sobre respeito, na prática ele não existe. Talvez precisemos trabalhar mais essa questão. O diferente existe e precisamos aprender a conviver com ele”.

 

 

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